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segunda-feira, 6 de abril de 2009

Garapa – Definhando o Brasil




Instigado por minha professora Vera Cristina (Realidade Sócio Política do Brasil) resolvi ir ao Festival “Tudo é Verdade” onde ocorriam sessões gratuitas de diversos documentários, incluindo o novo do aclamado diretor José Padilha (Ônibus 174 e Tropa de Elite). Como o próprio Padilha disse antes da exibição da película, o filme é difícil, duro e não é prazeroso de se mostrar.

O filme é cru ao extremo. Não há trilha musical. As câmeras de Padilha, filmando sempre em branco e preto, acompanham três famílias que vivem isoladas no nordeste brasileiro, mais especificamente no Ceará. A situação das três famílias é incomum aos olhos do público da capital paulista. Durante a exibição ouviam-se suspiros e expressões de espanto. Na tela, cenas chocantes de um Brasil pouco conhecido pela maioria. Crianças se alimentando de água com açúcar(a Garapa). Adultos vivendo no limite da paciência. Os problemas mostrados por Padilha atacam, de forma simples e objetiva, a ineficácia dos programas sociais criados pelo Governo Lula. O Fome Zero e o Bolsa Família se mostram inúteis quando não se há planejamento familiar, educação ou capacitação profissional para o cidadão que recebe tal benefício. O governo dá o peixe, mas não ensina a pescar. Os problemas de relacionamento entre as famílias, alcoolismo, saneamento básico, saúde, desemprego, falta de conhecimento de métodos anticoncepcionais são as mazelas que mais preocupam. Um ambiente onde não se vive dignamente, se sobrevive indignamente.

Padilha caminha por um território já navegado por ele mesmo em Ônibus 174. No filme em questão, o diretor humaniza o bandido, Sandro do Nascimento, explora os erros de um sistema falido de recuperação de criminosos e de um sistema carcerário absurdamente ridículo. Já em Tropa de Elite, Padilha foi acusado de mostrar um tipo fascista de polícia e instigar a violência de nossas instituições militares, mostrando tal método, que utiliza o artifício da tortura, como sendo eficaz. Em Garapa, o diretor retoma o prumo de seu primeiro documentário, acerta em cheio o estômago de um Brasil indiferente quanto aos assuntos da fome. Não só o Brasil, mas o mundo gasta muito pouco para eliminar esse problema gravíssimo da face da terra. Se gasta trilhões por ano para salvar os países da temida recessão e gastam-se míseros milhões para erradicar a fome. Resta saber se Padilha faz uso de boa fé ao lançar tal filme. Querendo ou não, ele explora aquelas três famílias de forma, quase, masoquista. Na tela, os compatriotas do diretor passam fome, e ele filma. Talvez a verdadeira intenção de Padilha nunca seja realmente alcançada. Ônibus não mudou nosso sistema carcerário falido, talvez Garapa não dê cabo da fome no Brasil, mas, querendo ou não, é um filme que todo brasileiro devia ver.

Lembrem-se, Lula disse em discurso após ser eleito em seu primeiro mandato:

"Se no fim de meu mandato, nenhum brasileiro passar fome, terei cumprido a minha missão."


Difícil missão presidente. Difícil missão.